O MOSH (Male Obesity Secondary Hypogonadism) é o hipogonadismo secundário associado à obesidade e representa uma das condições hormonais masculinas que mais crescem no mundo. Com o aumento exponencial da obesidade — segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 650 milhões de adultos já vivem com obesidade — cresce também a prevalência de homens com testosterona baixa de origem funcional.

Neste artigo, você vai entender a fisiopatologia do MOSH, critérios diagnósticos e as estratégias terapêuticas mais atualizadas, com base em evidências científicas.

O que é MOSH?

MOSH é um hipogonadismo hipogonadotrófico funcional, no qual a obesidade promove supressão do eixo hipotálamo–hipófise–gonadal. Diferente do hipogonadismo primário (falência testicular), no MOSH há redução ou inadequação de LH e FSH, levando à queda da testosterona total e livre.

Critérios clínicos e laboratoriais

Fisiopatologia: por que a obesidade reduz a testosterona?

A obesidade promove um estado inflamatório crônico que impacta diretamente o eixo hormonal masculino.

Resistência à leptina

O excesso de tecido adiposo aumenta a leptina. Em vez de gerar saciedade adequada, ocorre resistência central, inibindo neurônios de kisspeptina e reduzindo a secreção de GnRH — o que diminui LH e FSH.

Hiperinsulinemia e resistência insulínica

A insulina elevada reduz SHBG hepático e contribui para inflamação sistêmica, afetando negativamente a esteroidogênese.

Aumento da aromatase

O tecido adiposo converte testosterona em estradiol, ampliando o feedback negativo sobre o eixo.

Estresse oxidativo testicular

Citocinas inflamatórias (TNF-alfa, IL-6) aumentam a fragmentação do DNA espermático e prejudicam células de Leydig e Sertoli.

Corona G et al. Male obesity-related secondary hypogonadism (MOSH). J Endocrinol Invest. 2015. — link.springer.com

MOSH e Infertilidade Masculina

Homens com IMC > 40 podem apresentar prevalência de hipogonadismo de até 75%. Além da queda de testosterona intratesticular, o aumento da temperatura escrotal e do estresse oxidativo contribuem para piora da qualidade seminal.

Palmer NO et al. Impact of obesity on male fertility. Hum Reprod Update. 2012. — academic.oup.com

Tratamento do MOSH: qual a melhor estratégia?

A grande mudança conceitual atual é que nem todo MOSH deve ser tratado inicialmente com testosterona.

1. Perda de peso (base do tratamento)

Estudos demonstram que perda ≥ 10–15% do peso corporal pode elevar significativamente a testosterona total.

EMAS Study Group. Weight loss and testosterone levels. — academic.oup.com

2. Análogos de GLP-1

Medicações como liraglutida, semaglutida e tirzepatida demonstram melhora significativa de peso, LH, FSH e testosterona — muitas vezes superior à reposição direta.

Jensterle M et al. Liraglutide improves testosterone levels in obese men. Endocr Connect. 2019. — ec.bioscientifica.com

3. Clomifeno (preservação de fertilidade)

O citrato de clomifeno estimula LH e FSH, elevando testosterona endógena sem suprimir espermatogênese. Indicado para homens com desejo reprodutivo e MOSH com LH baixo.

4. Terapia de Reposição de Testosterona (TRT)

Indicada quando há falha da perda ponderal, sintomas persistentes e sem desejo reprodutivo imediato.

Opções incluem injetáveis (cipionato, undecanoato), gel transdérmico e implantes hormonais subcutâneos.

Endocrine Society Clinical Practice Guideline — academic.oup.com

Qual a melhor abordagem?

A literatura atual aponta que perda de peso + atividade física é o primeiro passo; GLP-1 pode ser superior à TRT isolada; TRT deve ser individualizada; e fertilidade deve sempre ser considerada antes da prescrição.

MOSH é, essencialmente, uma condição inflamatória e metabólica — não apenas hormonal.


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Conclusão

O MOSH representa um dos maiores desafios da endocrinologia masculina moderna. O manejo exige visão sistêmica, compreensão da fisiopatologia inflamatória e decisão terapêutica estratégica.

Mais do que repor testosterona, é preciso tratar a raiz metabólica da doença.

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